Publicado em 21 de agosto de 2007
Ao contrário de muitos contemporâneos que nem mesmo reconheciam o conceito, Sócrates (470-399 a.C.) fez do pecado simplesmente uma questão de ignorância. Para nos livrarmos de qualquer desordem nas almas, tudo o que precisamos é aprender a verdade. Cada vez mais a educação é o passaporte. Precisamos de método e diligência. Caso “conhecêssemos” mais, nunca pecaríamos. Esse ponto de vista é um dos pressupostos mais duvidosos do mundo. As taxas de crescimento da educação “superior” e das formas mais sofisticadas de pecado dentre seus receptores estão, de fato, quase paralelas.
Sócrates não estava totalmente errado. Quase sempre ele está certo, mesmo quando está errado. Certo elemento de conhecimento é um fator na (supostamente) agradável arte da perversidade. Aristóteles (384-322 a.C.) era mais teimoso. Ele percebeu, como fez Sócrates, que os piores eram sempre os homens mais inteligentes. Ele também compreendeu que nós mesmos primeiro selecionamos o componente cognitivo de um determinado pecado.
O conhecimento em si é bom. Devemos saber o que é o pecado, até mesmo suas profundezas. A ingenuidade não é uma virtude cristã. Não podemos saber o que é bom sem saber como isso se relaciona com o que é mau. Antes de um pecado, a vontade tem diante de si inúmeras opções possíveis a escolher para guiar suas ações. Portanto, se quisermos fazer algo errado, sempre podemos apresentar uma razão plausível que explicará, ao menos para nossa própria satisfação, por que o que fazemos está “certo”.
Mas um ponto interessante é o de se a própria ignorância pode ser pecaminosa. Tomemos, por exemplo, a questão de se os católicos veneram a Virgem Maria como uma “deusa”, ou a alegação de que os católicos possuem três deuses. Essas e outras acusações similares são apresentadas como razões que demonstram que o catolicismo não é verdadeiro.
Não há dúvida que os apologistas católicos adoram ouvir que tais ferozes afirmações contra a fé são os motivos de ela ser rejeitada. Se a Igreja Católica disser que Maria foi exatamente uma deusa ou que, de fato, existem três deuses, nenhum de nós, em sã consciência, seria católico. As pessoas que insistem que os católicos adoram Maria ou adoram três deuses normalmente não querem saber o que os católicos realmente têm a dizer sobre esses assuntos. Para ser católico é preciso, no mínimo, que se use o cérebro.
Ou tomemos a situação oposta: os ensinamentos católicos – digamos, sobre controle da natalidade ou aborto – são tidos como irracionais. Eles podem ser qualquer coisa, menos irracionais. Certamente são as posições mais racionais nessas áreas. Quase sempre os argumentos do catolicismo são tidos como irracionais porque ninguém quer confrontar a firme racionalidade que os sustenta. Se alguém quiser que o aborto ou o controle de natalidade sejam verdadeiros, é melhor não examinar muito cuidadosamente por que eles não poderiam ser válidos.
Toda a questão do “Código Da Vinci” traz outro aspecto para essa questão da ignorância pecaminosa. A fantástica pseudo-história sobre Judas, Maria Madalena, João Batista e as reconstruções de como deve ter sido a Paixão são matéria-prima desses romances. Mas se alguém fica abalado em sua fé por causa da “lógica” supostamente “científica” de Dan Brown, deve haver algo mais que está deformado. Isso não quer dizer que a cultura católica não tenha previsto ou examinado tais alegações de uma perspectiva mais séria. É preferível não ter audácia a descobrir onde buscar respostas sensatas.
Pensemos nos milhares e milhares de estudantes de nossas escolas e universidades públicas e privadas. Os estudantes deveriam saber de antemão que esses locais são mini-campos de batalha. Deveriam saber para onde se voltar. Simplesmente não fazer nada, não fazer esforço algum para examinar a validade dos pontos de vista anticatólicos é uma ignorância pecaminosa. O equilíbrio adequado está lá fora. Devemos saber para onde nos voltar para encontrá-lo. Não conhecer significa que temos de confiar naquilo que já não sabemos. “Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento?” (Mt 11,7).
Tradução de Márcia Xavier de Brito